Terça-feira, Junho 16, 2009

Dirces

Todo mundo me escreve perguntando o que eu quero dizer com "Dirces".
Tenho um texto de uma amiga querida que explica melhor do que eu conseguiria explicar e até um pouquito mais.
Let's go.


"Você é daquelas que não tem vergonha alguma em informar aos amigos, em plena sexta à noite, que vai ficar em casa terminando o seu novo projeto em tricôt? Ou daquelas que, na livraria, ficam em dúvida entre uma revista de música ou um livro de receitas? Se sim, você provavelmente também é Dirce – tendência entre moças jovens, modernas, que estão resgatando valores domésticos presumidamente “perdidos”.

Há quem diga que cada movimento cultural vem para contradizer o anterior. Com as Dirces não seria diferente – a segunda onda do movimento feminista dos anos 60 e 70 resgatou a mulher de sua vida de prisioneira doméstica e projetou-a para dentro do mercado de trabalho. Além disso, a autonomia reprodutiva (afinal, a pílula anticoncepcional entrava com força total no mercado) permitiu que as mulheres organizassem suas vidas em torno dos próprios sonhos e aspirações, o que poderia – ou não – incluir casamento e filhos.

Entramos nos anos 80 e 90: a ascensão profissional das mulheres parece insuperável. Muito tempo trabalhando, pouco tempo para a família – tudo perfeitamente aceitável dentro da nova, ligeiramente mais moderna sociedade. As garotas, que no passado passavam grande parte do dia aprendendo receitas e trabalhos manuais das mulheres da família, agora se preparam em escolas caras para tornarem-se competitivas como as mães.

Isso, até chegarmos em 2003. Porque, ao menos nos Estados Unidos, foi aí que começou, oficialmente, o movimento que, no Brasil, é chamado de As Dirces. Em outubro, a revista do The New York Times publicou o artigo seminal que analisou de perto essa volta ao ambiente doméstico, chamada “The Opt-Out Revolution” (algo como “A revolução das que escolheram sair”), onde advogadas formadas em Princeton, professoras universitárias com currículos acadêmicos impressionantes, e empresárias com MBA explicam por que resolveram largar tudo e “voltar para casa”. A maioria diz que o mundo profissional não é tão gratificante quanto ficar em casa cuidando dos filhos, e que estão cansadas daquela corrida desenfreada por sucesso.

Mas a coisa ficou séria mesmo quando o novo movimento do Arts and Crafts ganhou força nos últimos cinco anos – garotas de vinte e poucos anos pilotando máquinas de costura, fazendo as próprias roupas e também vendendo peças a preços exorbitantes, e outras aprendendo sozinhas a cozinhar, e muitas interessadas em jardinagem. São as filhas dessa geração das mães dos anos 80 e 90, que, preocupadas em trabalhar fora, jamais ensinaram as filhas os macetes da vida doméstica. São mulheres que cresceram vendo as mães sempre exaustas, e que pensaram que o mesmo caminho talvez não lhes apetecesse.

Ao mesmo tempo que é lindo ver as mulheres tomando as rédeas da situação, sendo extremamente adaptáveis – como sempre – é impossível não notar que o movimento das Dirces, em todos os seus méritos, é extremamente perigoso. As garotas podem estar envolvidas em processos criativos novos, complicados e estimulantes, mas o que a sociedade vê não é o “processo mental”: a sociedade vê é a mulher em casa. A sociedade vê a mulher – novamente – como sempre quis vê-la (domesticada) e isso é extremamente satisfatório para o mecanismo machista que é o modus operandi desse nosso sistema.

Que mal há nisso? Que mal há em “voltar para casa”? O mal está não só no fato da mulher ser agora desinteressada em envolver-se no alto escalão do sistema (onde todos aqueles MBAs seriam ótimos!), mas nessa velha configuração que elas estão modelando para as crianças que as rodeiam: “a mamãe fica em casa”. E daí que ela está costurando uma bolsa incrível de caveirinhas? A mamãe fica em casa. E será que o pai também está aprendendo a cozinhar, ou mostra que tem jeito para qualquer modalidade doméstica? "


Huum... let me see, eee, eee....
Texto de Isabella Gargiullo, (te amo, volta logo pelamordedeuzzzz)
Passa no blog dela e vê tudo pq é demais.

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